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Luigi Manini: O cenógrafo da fantasia e do sonho

Luigi Manini foi uma considerável figura da modernidade portuguesa. O arquiteto, pintor e cenógrafo, afirmou-se no panorama português da segunda metade do século XIX pela sua capacidade de transpor a cenografia para a arquitetura. Neste artigo vamos dar a conhecer um pouco da sua vida e da sua arte.

Nasceu em Crema, a 8 de março de 1848, num meio social de parcos recursos. No ano letivo de 1861-62 integra o curso de ornato na Real Accademia di Belli Arti di Milano e as capacidades do jovem não passaram despercebidas aos professores. No entanto, devido a dificuldades financeira, não pôde concluir os seus estudos. Mais tarde, teve a oportunidade de frequentar as aulas particulares de Ferdinando Cassina, professor adjunto da cátedra de ornato, em Brera.

Na década de 1870, Manini estreou-se no Teatro Sociale di Crema, onde iniciou a sua carreira como cenógrafo.

Em 1879 já se encontrava em Lisboa para trabalhar no Real Teatro de São Carlos, por indicação pessoal do mestre Carlo Ferrario. Desengane-se quem pensasse que foi um mar de rosas. Os primeiros tempos foram de difícil adaptação para o jovem cenógrafo, mas as suas expectativas ainda haveriam de sofrer um rude golpe.

A estreia da ópera Africana, na noite de 29 de outubro de 1879, quando o teatro São Carlos abriu portas, foi um desastre. O pano foi pateado e as cenas desprezadas. Manini foi recebido com reserva por alguns periódicos, mas bem aceites por outros. Na fileira de apoio a Manini estava Rafeal Bordalo Pinheiro. Este não poupou a “Velha sociedade”, aplaudindo o italiano “contra os versados da arte de caiar”.

O ano de 1883 foi o ano da consagração de Manini em Portugal. Participou na obra do Palácio da Bolsa, no Porto, na pintura dos Brasões do Pátio das Nações. Outros trabalhos vieram nos anos seguintes: Trabalhou do Teatro Municipal Sá de Miranda, em Viana do Castelo, inaugurado em 1885. Colaborou também na decoração da Cidadela de Cascais.

Pátio das Nações do Palácio da Bolsa, no Porto

Na década de 1890, Frederico Biester encarregou o arquiteto de um projeto decorativo, desta vez no interior do Palácio Ratton, em Lisboa, atual Tribunal Constitucional.

No final do séc. XIX destacam-se os trabalhos realizados em Sintra, na Vila Sassetti e o Palácio Biester (este último, entre 1890 e 1894).

Na última década do século XIX, o proprietário Frederico Biester encomendou um projeto para a sua casa em Sintra ao consagrado arquiteto José Luís Monteiro, tendo confiado a decoração a Luigi Manini e ao escultor Leandro Braga. Nos interiores, Luigi Manini inspirou-se no estilo medieval gótico flamejante, juntando o traço da Arte Nova, tendência da época.

A Vila Sassetti, hoje denominada Quinta da Amizade, foi organizada de forma a que a construção se integrasse na paisagem e no espaço envolvente. Através de materiais como a cerâmica e pedra rústica, Manini utilizou as formas e os sistemas construtivos da arquitetura românica: Torreões ameados e galerias suportadas por finos colunelos.

A arquitetura neomanuelina acabou por assumir um carácter cenográfico não foi alheio a encenadores italianos como Luigi Manini. O artista utilizava nos cenários um colorido que, ao início, não agradava, mas aos poucos a vivacidade das suas paisagens impôs-se. Manini acabou por transpô-las para a realidade.

Os dois edifícios neomanuelinos que projetou (Hotel do Buçaco e Quinta da Regaleira), contêm paisagens exóticas e grandiosas, que funcionam como duas belas cenografias transplantadas das tábuas de um palco.

Um nos maiores trabalhos de Manini em Portugal foi no Hotel Palácio do Buçaco. Foi encomendado pelo ministro Emídio Navarro, em 1888. Foi concluído em 1907, tem como elemento decorativo o Neomanuelino, ou seja, um revivalismo da arte usada no tempo de D. Manuel I. De planta retangular, é construído por um piso térreo e dois superiores, elevando-se num dos cantos, uma torre. Para o projeto, Manini encontrou inspirações na Torre de Belém (nas varadas dos pisos superiores e torre) e no Claustro do Mosteiro dos Jerónimos (no piso térreo).

Palácio do Buçaco

No verão de 1898 surge uma encomenda de outra obra de arquitetura que fez com que Manini permanecesse em Portugal até 1912. Trata-se do Quinta da Regaleira, de António Augusto de Carvalho Monteiro.

Ao estilo neo-manuelino, o palácio é revestido por vários motivos decorativos: por um lado, os cordames, o vegetalismo, esferas armilares e colunelos torsos; do outro contém animais fantásticos, iconografia esotérica, que podem resultar de várias interpretações. O palácio, iniciado a 1900 estava concluído em 1910.

Quinta da Regaleira

Também realizou trabalhos de arquitetura funerária, destacando-se o jazigo da família Carvalho Monteiro, edificada no Cemitério dos Prazeres.

Luigi Manini veio a falecer numa propriedade na serra de Brescia, em 29 de junho de 1936, com a idade de 88 anos. Se houvesse dúvidas de que os mais vulneráveis pudessem vingar profissionalmente, Luigi Manini é um exemplo que alguém que conseguiu seguir conquistar um lugar no panorama artístico, tanto em Itália, sua terra natal, como em Portugal, vindo de uma família com poucos recursos financeiros.

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