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A Custódia de Belém

A Custódia de Belém é uma das mais célebres obras da ourivesaria portuguesa. O seu autor foi Gil Vicente, mestre ourives e dramaturgo. A polémica sobre se Gil Vicente seria ou não o autor, despertou ainda mais o interesse dos historiadores e do público por esta obra de ourivesaria.

Apesar de todas as dúvidas, esta obra é atribuída a Gil Vicente. Antes de se dedicar exclusivamente à dramatologia, exerceu diversas profissões relacionadas com a atividades de oficial mecânico. Manteve uma forte ligação à corte de D. Manuel I e mais tarde, à corte D. João III, organizando festas e comemorações.

A Custódia de Belém foi finalizada em 1506 com o primeiro ouro de Quíloa (atual Moçambique). Trata-se de uma apologia ao rei D. Manuel I, em ouro e esmalte, na linguagem do Tardo-Gótico, que encontramos nas grandes edificações manuelinas.

Quanto ao tema que está retratado na Custódia, existem dúvidas se se trata de uma Representação do Pentecostes, ou em alternativa, a uma figuração da Santíssima Trindade.

Na base inscreve-se a legenda: O. MVITO. ALTO. PRICIPE. E. PODEROSO. SENHOR. REI. DÕ. MANUEL. I. A MDOV. FAZER. DO. OVRO. I. DAS. PARIAS. DE. QILVA. AQVABOV. E. CCCCCVI. Os encaixes são decorados com flores, frutos, aves e outras aplicações naturalistas, esculpidas em alto relevo e esmaltadas.

Base da Custódia

A haste tem um formato hexagonal, com seis esferas armilares, a divisa de D. Manuel I, como decoração.

Sobre o pé ergue-se o corpo arquitetónico que contém o ostensório (onde se expõe a hóstia), que cuja base promanam dois troncos enlaçados que sustentam os pilares laterais.

Haste da Custódia com esferas armilares

A partir da haste desenvolve-se a base do ostensório. De cada lado, erguem-se dois pilares fortemente decorados, fazendo lembrar as catedrais do final do período gótico. À volta do cilindro de vidro, onde se colocaria a hóstia, estão representados os doze Apóstolos, esmaltados.

Pormenor da Custódia – Apóstolos

Os dois pilares laterais sustentados por finos colunelos com vários nichos. Num deles está a Virgem e nos restantes estão vários anjos que tocam instrumentos musicais em louvor.

Pormenor de anjo músico

A cúpula articula-se com os pilares laterais e apoia-se na peça que serve de amparo superior do cilindro, guarnecida de rendilhados e ornada com querubins. Na cúpula encontram-se também representado o Padre Eterno, coroado, com a esfera do universo e a cruz na mão esquerda e abençoando com a mão direita. No compartimento inferior a este, suspendeu-se uma pomba, em esmalte branco, símbolo do Espírito Santo. Uma cruz serve de remate superior a toda a custódia.

No século XVIII, foi retirado o cilindro, foi colocado um hostiário circular. Em 1910, a rainha D. Amélia desenhou a custódia, ainda com o hostiário. Mais tarde, em 1929, realizou-se o ajuste do conjunto à estrutura inicial, por decisão do Dr. José de Figueiredo, juntamente com o ourives Ferreira Tomé e sob orientação do Dr. João Couto. Foi colocado um cilindro de vidro, refeito com rigorosas medidas.

Custódia desenhada pela Rainha D. Amélia, em 1910

A Custódia foi doada ao Mosteiro dos Jerónimos pelo rei D. Manuel I, que deixou esse desejo no seu testamento. Lá ficou até a secularização do Mosteiro, em 1834. Foi salva por D. Fernando II, quando se preparava o seu desmantelamento para o fabrico de ouro e moedas. Passou a pertencer às coleções reais e depois ao Museu Nacional de Arte Antiga, onde se situa atualmente.

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